O Cadáver Esquisito à mesa de dissecação
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quarta-feira, maio 16, 2007
Um certo surrealismo que dá jeito
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terça-feira, maio 08, 2007
O parque dos poetas mortos

O parque dos poetas mortos é nos Prazeres e por vezes num ou noutro lugar mais confortável. É lá que os poetas mortos se encontram verdadeiramente. Os outros parques para agradar aos próprios e aos moradores que têm as carteiras recheadas, não são verdadeiros parques de poetas mas manifestações de hipocrisia de uns (os poetas) e de outros (os poderes políticos locais e os moradores endinheirados).
Geralmente o processo faz-se como todos já sabem: ergue-se uma estátua, dá-se um nome de rua e depois chama-se àquele conglomerado de habitações sofisticadas (garagem privada, segurança, parque infantil fechado, etc), um parque de poetas.
O que pretendemos aqui referir é tão somente o seguinte: os poderes políticos locais não fazem isso porque gostem de poesia ou dos poetas assim "lembrados". Fazem-no porque querem atrelar a poesia, dar-lhe uma conotação de coisa recitada e escrita e não de algo que possa de alguma forma alterar a vida das pessoas ou contribuir para uma verdadeira transformação do mundo (e a transformação do mundo não é como todos também sabemos, passar a falar-se do Saramago ou do Cesariny em vez de se falar do Camões ou do Cesário Verde). O parque dos poetas é uma outra forma de fazer ou continuar a Europália ou a Expo 98: o importante, o substancial é pôr uma coleira à volta do pescoço dos poetas e torná-los dóceis, tipos que não levantam um dedo contra as instituições e os poderes instituídos, lembrando que estes são corruptos e autoritários, que continuam a perseguir os cidadãos, que continuam a pagar para que os cidadãos se espiem mutuamente (o actual PM e o das Finanças sabem como isso se faz). Foram à cartilha dos antigos informadores e estão a fazer pior. Como um vírus largado num estádio coberto, querem transformar todos os cidadãos portugueses em bufos ("olhe sr. guarda republicano, aquele senhor está ali a fumar"). Nem o Salazar se teria lembrado de tal coisa ele que também foi para lá para equilibrar as finanças do país.
Os poetas são pois pessoas responsáveis e respeitáveis (mesmo alguns que se reclamam do Surrealismo), e tal como os políticos, querem ser lembrados com honrarias, não querem ficar ocultos pois a ocultação pedida pelo próprio André Breton (e que não equavalia a deixar de pintar, escrever, etc.), é demasiado custosa em termos financeiros e pessoais - não dá para ter o nome assinalado pelos media, os jornais, as televisões, até os "magazines do coração".
E o que fazem os políticos para verem retribuídos os seus favores? Pedem o voto, a cara, a caneta e a paleta do artista: "vamos colocar no tempo de antena, o seu apelo ao voto no nosso partido, tome lá querido camarada o nome para uma urbanização e uma medalha de bons serviços, e quanto à exposição lá no palácio que agora pertence à República, pode contar com ela!").
Mas se o leitor andar com atenção pelo país, pelas cidades e vilas do nosso país, verificará o tipo de ruas que atribuem aos poetas mortos: há ruas cheias de cagalhões, outras cheias de carros velhos e abandonados, coisa poética obviamente.
Quando se olha para essas ruas tudo parece indicar que são ruas destinadas a "largar o calhau", é para ali que se dirigem numa espécie de procissão colectivista, todos os bêbados, vagabundos e outros populares a quem falta o regime sanitário básico. Dá sempre a sensação que é nelas que de repente dá a vontade de urinar e fazer cócó, nunca na rua de um comendador ou de um político famoso da primeira ou mesmo da segunda república. Quando se está aflito vai-se obrar lá para o pé da estátua do Sá Carneiro ou do Marquês de Pombal? Não. O que se faz é palmilhar ruas e ruas, algumas compridíssimas, para se chegar ao ponto do eterno retorno - uma rua com nome de poeta. E aí sim, sabe bem "largar o calhau", varrer tudo com chichi e depois limpar o cu aos arbustos que haja por lá. O serviço fica assim completo e é provável que quem passe pelo local se venha a lembrar do poeta homenageado, não propriamente pelo que escreveu ou pela forma como viveu, mas pelo cóco que lhe depositaram junto ao pé.
O regime socialista, republicano e laico é pois um dos principais inimigos da poesia viva, a Toda (aquela de que Herberto Helder nos fala), precisamente porque faz esvaziar aquilo que ela contém de subversivo, libertador e revolucionário, a capacidade de alterar rumos, vivências, lugares, a capacidade de transmutar. Premeia e consagra para arrumar o artista e o poeta na prateleira do Tempo, para que se diga dele no banquete das celebridades: "escrevia muito bem, eu gostava muito da sua poesia...e o soufflé caro senhor, quando nos traz o soufflé, a lagosta estava óptima...?".
Tal como no estalinismo, no fascismo vermelho, o regime socialista republicano e laico (dito social-democrata), também usa a emulação para premiar os mais devotados, os que de uma forma ou doutra (e douta, espertalhona pois), se esforçam para que o regime se aguente no poder ou volte a ele, se possível perpétuamente (como nalgumas autarquias locais).
Se o verdadeiro parque dos poetas mortos é nos Prazeres (estão lá reunidos alguns que nem sequer se davam pessoalmente, foram portanto forçados a conviver depois de mortos), deu-se aos poetas desaparecidos a possibilidade de estarem simultaneamente espalhados por algumas urbanizações de luxo e ao mesmo tempo disseminados por essas ruas que os portugueses escolhem preferencialmente para obrar e urinar.
Dá-se nome de rua no Parque dos Poetas em Oeiras, ao poeta António José Forte? ao Lud? Claro que não. Quando muito na terra que os viu (ou não viu) nascer, dá-se-lhes uma rua pequena que será inevitávelmente o cagatório para muitos dos moradores locais. E tudo porque não se obteve desses poetas, o nome no cartaz, o nome no panfleto eleitoral, o nome no discurso do político nacional ou local, o nome na lista dos apoiantes do partido.
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A memória dos poetas não se honra à chapelada
O que a memória dos poetas não precisa mesmo é de chapelada, honrarias, nomes de rua, estátuas e outras distinções que juntam sempre na campa ou jazigo (quando não é panteão), alguns políticos de circunstância e alguns nomes da cultura sempre ávidos em preservar o verbo do poeta mas não a sua acção. O povo, "o nosso povo de poetas", esse não vivencia o poeta e no dia seguinte esquece-o, se é que alguma vez ouviu falar dele.
Do poeta devemos tomar a sua poesia escrita mas também e sobretudo a sua poesia vivida. E dessas duas formas de intervenção poética (a da palavra e a da acção), o poeta espera que as tomemos no espírito e nas nossas mãos e continuemos aquilo que foi o seu combate. É assim que o poeta não desaparece da nossa memória e não com louvaminhas, visitas ao cemitério em horas de ponta (e mola?) para que os media nos vejam lá a tirem a fotografia. Ou que os amigos do poeta nos vejam e falem disso nas suas memórias.
Critiquemos também o poeta naquilo em que é preciso assinalar como defeito ou o desacerto do tiro na hora de apontar ao drago. Hoje os surrealistas criticam Dali por ter sido um avida-dollars. Mas Dali não foi um caso isolado e muitos dos poetas cobrem-se hoje de honrarias e dinheiro, tal como Dali o fazia. Fazem fundações com os amigos de partido, aqueles a que ajudaram a eleger, dando a sua face e também a sua Palavra. O avida-dollars tornou-se um lenço ou uma gravata para usar ao pescoço de muitos poetas e artistas, e alguns são surrealistas ou foram-no.
Uma das setas mais afiadas do Surrealismo era e é a sua capacidade de crítica e auto-crítica ("a Crítica é a razão da nossa permanência", escrevia um poeta surrealista da primeira geração). Não se entenderia pois que aos surrealistas fosse fechada essa porta que comunica com o exterior e do qual o poeta, o artista, o cidadão libertário que se identifica com o Surrealismo, estivesse imunizado de qualquer ataque ou crítica por parte dos outros. Não é por acaso que a maioria de 99,9% pensa ainda como se pensava poucos anos após a formação do primeiro grupo surrealista em Portugal - o Surrealismo é para essa imensa maioria, apenas, repito, apenas, uma estética e um estilo literário como tantos outros. Ou as palavras não foram tão sábias quanto isso ou as pessoas de um modo geral têm o espírito penhorado e não se aperceberam daquilo que aqueles senhores e aquelas senhoras de insólito dizer, queriam de facto reclamar.
E após os anos 60 e "depois de Abril", a coisa piorou ainda. Das palavras aos actos nem pensar. Ataques ao Poder e aos poderes instituídos "democráticos", combate de rua, nem pensar! A "Revolução Surrealista" gerou também em Portugal (mas não só), os slogans dos actuais cartazes publicitários, um dos intrumentos de manipulação mais hábeis. O "Há mar e mar, há ir e voltar", escrito por Alexandre O´Neil, um poeta "surrealista" de primeira geração (o cartaz com a sua frase foi um dos cartazes publicitários de vulto na nossa praça), tornou-se hoje mote e referência para quase todos os publicitários que usam a "surrealidade" para venderem os produtos dos seus donos. A "Revolução Surrealista" precisava de ter saído mais à rua para enfrentar os inimigos que dizia combater. E não foi isso que fez.
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domingo, maio 06, 2007
O jazigo de Laura
A temática dos laureados é difícil de abordar, sobretudo nalguns países mediterrâneos, nos quais o prémio é mesmo um prémio, um gesto de reconhecimento apenas, um premiado é mesmo um(a) personagem qualificada e talentosa, indiscutível pois a sua escolha, quer seja pela câmara local, quer seja pelo lobby petrolífero de Oslo.
Nestes países é possível ser-se premiado e ao mesmo tempo afirmar-se uma estranha independência do Poder, mesmo quando é este que premeia.
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quarta-feira, maio 02, 2007
Parasitas do Surrealismo
Dado que o tipo de parasitismo a que o autor se refere habita igualmente outras partes do mundo e particularmente Portugal (onde a vaga de estudiosos, universitários ou não, não pára de crescer), procuraremos dar aqui um enfoque e ênfase especial a esta problemática que interessa não apenas aos autores e artistas surrealistas mas também a muitos cidadãos livres em geral.
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terça-feira, maio 01, 2007
1º de Maio

(Desenho de Aubrey Beardsley "Examinando o Herald", 1896)
Os assalariados de "todos os países uni-vos", em vez de irem para a comezaine habitual deviam aproveitar o dia (que por sinal nem está muito bom para a praia), para derrubarem as direcções sindicais, transformando os actuais sindicatos em organizações realmente independentes e não em instrumentos de manipulação dos trabalhadores e elos de ligação com o estado e o capitalismo selvagem.
Neste dia toda a esquerda e alguma direita sindical fazem os seus próprios piqueniques e no dia seguinte sentam-se à mesa da conciliação e em troca recebem subsídios e outras oferendas. Diz-se que é para a formação profissional mas a maior parte vai para as bandeirinhas e os outdoors. Ou para fazer empresas de sondagem e outras artes lucrativas.
É o dia em que os assalariados dão as mãos uns aos outros e ao Estado, o maior patrão de todos.
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