O Cadáver Esquisito à mesa de dissecação
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segunda-feira, abril 30, 2007
Maldoror, Portugal 2007

(Colagem de Carlos Martins, 1995)
Servidor do estado, funcionário, agente e especulador, proletário-bufo e bufão de latrinas ou de partido (de que faz parte integrante mas não íntegro, corrupto, ignóbil procriador, subsidiário institucional), tem licença para matar que por vezes não usa, antes troca por uma vida descansada, quieta, campestre e soalheira, à sombra da exploração dos outros, económicamente mas não só. Há quem se sirva do trabalho dos outros para se dar a conhecer, só por isso, dar-se a conhecer, mostrar-se na plenitude do mal que lhe cobre a pele. Gordura líquida, pus, diarreia, esperma e sangue. Enchidos.
Sem o Estado e o seu estado de servir ajoelhando-se ou simplesmente tirando o chapéu de passagem, jamais conseguiria viver. Sem o patrão da respectiva repartição ou do gabinete, não saberia orientar-se na floresta fechada e cinzenta em que se formou e enformou a sociedade, que ele próprio ajudou a "edificar", ele que é afinal o Grande Arquitecto do Universo, o Sete. O intelectual e o político, o parvo, o sem côr, aquele que não tem nenhum som que lhe caia bem, o falso. Tende para o gordo, bebe, reparte-se pelas suas várias casas, come e fornica, cobre a prole com o seu manto de baba e memórias ancestrais e os seus gestos de resignação, ele que foi em tempos um revoltado, um rebelde, um radical...
Converteu-se. Tem várias igrejas conforme o salão ou o cafézinho local onde gosta de recitar, onde discursa, onde dá a benção aos mais novos que o seguem como pequenos cães esfomeados. Poetas e ilustrados tal como ele. É islâmico, católico ou mesmo ateu noutros afazeres, e está sempre no lugar exacto, na hora exacta. Nunca perde a cabeça porque nunca sabe do que se passa. Se há um amigo que, em última instância, lhe pede ajuda, não sabe o que fazer, não sabe sequer como e o que se passa. Mas passa pelos séculos incólume. Está sempre com os que acha mais fortes, desde que lhe concedam favores, segurança. A vida descansada. Na juventude não tinha partido, era um "foragido", um "marginal", hoje trata o Estado por tu e tratam-se mútuamente assim, concedendo-se prémios e honrarias por pequenas que sejam. É um avant-garde.
Medalhas que vão buscar ao sangue e à urna dos outros.
Pequeno como um bébé já se lança de dentes e dedos afiados puxando pela mãe a quem chupa no leite que das tetas orçamentárias lhe escorrem, por entre cartazes publicitários feitos por gente também "gótica" e radical e que faz todos os dias rimar o poema com a conta no banco. Cresce como um deus local, adormece como um porco, rosna e ronca, e come nos melhores restaurantes da grande cidade. É europeu e ultra-moderno mas não esquece as raízes rurais, volta sempre lá para estar com a cabra e comer a refeiçao tradicional com os amigos, ministros ou secretários de estado, nem faz por menos. Sopa de pedra, inquietante.
Adora o campo, a paisagem, a erva, a espiga, as borboletas e os pássaros sobretudo quando os vê mortos, os olhos perfurados, porque não quer que o vôo destes lhe incomode a alma. Lê livros de rajada e não perde os sucessos editoriais, tem sempre onde publicar e escreve também muito (e deixa em testamento "vou deixar para a minha fundação"). E ao fim e ao cabo, os filhos ou os herdeiros de partido, concedem-lhe uma fundação. Com o nome dele. Se ouve falar de pintura também pinta, não vá o pintor roubar-lhe a paleta, a patente e o sucesso. Se há um actor de que se fala, ele próprio transforma-se em actor de um dia para o outro. Mesmo que não se aperceba sequer do que é um actor, senão pelos manuais que lê vorazmente, não importa. Ele representa. E declama.
Quando morre vai definitivamente para cima onde os anjos o cobrem de branco, o mais imaculado dos brancos, ele que tinha a alma negra embora o disfarce cá em baixo fosse perfeito.
Carlos Martins
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terça-feira, abril 24, 2007
Um voto para o Cruzeiro
não é de espantar que o côro silencioso das bruxas yuppies de S. Bento e dos espantalhos provincianos do palácio de Belém se tenha imposto sobre os problemas de saúde de um dos mais representativos artistas do Surrealismo internacional - Cruzeiro Seixas, a quem daqui endereçamos os votos de melhoras após a intervenção cirúrgica a que foi submetido.
As melhoras querido companheiro!
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sábado, abril 21, 2007
Poetas na Surrealidade em Estremoz
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segunda-feira, abril 16, 2007
Memória de Cesariny

("A campa do poeta", pintura de Rik Lina, à memória de Mário Cesariny)
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sábado, abril 14, 2007
Apresentação pública do livro "Poetas na Surrealidade em Estremoz"
Embora não possamos estar presentes por motivos de ordem profissional, agradecemos o convite que nos foi dirigido e apresentamos ao autor e a todos os que contribuíram para o lançamento desta obra, os votos de maiores sucessos.
Não é nem todos os dias, nem todas as semanas, meses ou anos, que é possível em Portugal, ter nas mãos uma tão interessante e significativa recolha de poemas dos mais diversos autores que se reclamam do Surrealismo ou que, de alguma forma, com ele se identificaram.
A edição desta obra manifesta ainda toda a actualidade do Surrealismo, não apenas enquanto expressão literária e artística mas igualmente como movimento de emancipação do espírito e de exaltação do amor, do sonho e da liberdade, em todos os domínios da vida.
Calar-se-ão as vozes que teimam em identificar o Surrealismo como um movimento já ultrapassado e já empalado nas bibliotecas ou nos museus oficiais? Ou terão ainda uma ténue lucidez para perceber que há novas vozes a circular por entre as ruínas de um tempo ido?
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quinta-feira, abril 12, 2007
Recordação de Lautréamont - Noé Ortega
Há mais de cem anos, no dia 5 de Abril de 1846, recordam alguns, teria nascido Lautréamont, o poeta dos "Cantos de Maldoror". O "Surrealist London Action Group" (ou Grupo de Londres de Acção Surrealista) - o SLAG, relembrou a data através de um jogo denominado "PLAGIARISM POTLATCH TO CELEBRATE LAUTRÉAMONT'S BIRTHDAY". A ele responderam vários autores, entre os quais Noé Ortega, do Grupo Surrealista de Madrid de quem deixamos aqui o testemunho:
Tirei esta fotografia na minha cidade, Santander. Encontrei-a por acaso numa rua frontal a uma loja de lingerie feminina. Suponho que alguém teria alvejado o anúncio com uma pedra ou algo como isso, produzinho assim uma espécie de teia em expansão. Em resultado disso, o anúncio (provávelmente destinado a submeter-nos às leis da publicidade), foi completamente subvertido e desviado para o território próprio do desejo e do maravilhoso. Algo que tem directamente a ver com o plágio também aconteceu aqui: num dia o vidro tinha sido quebrado; depois de o ver assim, fui fotografá-lo e pude então ver que alguém lhe tinha feito uma sssinatura por cima; alguns dias depois, a assinatura fôra apagada. Algumas semanas depois surgia uma outra assinatura. Contudo, o anúncio foi reparado poucos dias depois.
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Apresentação do livro "Antologia de Poesia Surrealista"

É já no próximo Sábado que será apresentada ao público, a obra "Antologia de Poesia Surrealista", organizada pelo poeta e pintor, Nicolau Saião. A apresentação terá lugar pelas 15 horas, na Biblioteca Municipal de Estremoz.
Da obra constam poemas dos seguintes autores: Allan Graubard, Amanda Berenguer, António Barahona, Beatriz Hausner, Claudio Willer, C. Ronald, Floriano Martins, Gérard Calandre, Giordano Bruno, Isabel Meyrelles, Jack Dauben, João Garção, João Paulo Silva, Juan Liscano, Laurence Weisberg, Maria Estela Guedes, Miguel de Carvalho, Nicolau Saião, Rafael Daud, Renato Suttana, Rosa Alice Branco, Ruy Ventura, Susana Giraudo e Wladimir Saldanha.
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quinta-feira, abril 05, 2007
No aniversário do nascimento de Lautréamont

(Contribuição de Alexandre Fatta, Quebec City)
Ontem, dia 4 de Abril, data em que se recorda o nascimento do poeta Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont, o SLAG (Londres), publicou as contribuições enviadas por diversos artistas e membros de grupos surrealistas de vários países, para o jogo promovido pelo referido grupo londrino e intitulado " PLAGIARISM POTLATCH TO CELEBRATE LAUTRÉAMONT'S BIRTHDAY". O tema escolhido parte de uma frase do próprio poeta "O plágio é necessário. O progresso implica-o".
A lista de contibuições é a seguinte:
Alexandre Fatta in Quebec City
Bruno Jacobs in Stockholm
Carlos Martins of the Surrealist Movement in Portugal
Dan Stanciu in Bucharest
Derek Adams in Essex
Enrique Lechuga in Montreal
Eric Bragg in California
Gale Ahrens of the Chicago Surrealist Group
James Bailey of the Recordists
Juan Carlos Otaño of the Río de la Plata Surrealist Group
K.W. Zentner of the Recordists
Merl of SLAG
M.K. Shibek of the Portland Surrealist Group
Nikos Stabakis of the Athens Surrealist Group
Noé Ortega of the Madrid Surrealist Group
Oscar McLennan in Buenos Aires
Parry Harnden in Ontario
Paul Cowdell of SLAG
Rik Lina in the Netherlands
Rob Tobin in Toronto
Sasha Vlad in San Francisco
S. Higgins of the Recordists
S.Venright of the Recordists
Thom Burns in Coconino County
William Davison of the Recordists
Infelizmente e dadas as limitações de tempo entre o convite recebido e a data de publicação das contribuições (4 de Abril, ao meio dia), não nos foi possível alargar as contribuições a um mais vasto grupo de artistas, nomeadamente no caso português. Pedimos a todos as maiores desculpas já que, e embora a iniciativa não partisse de nós (ao contrário do jogo "Memories are made of this" iniciado pelo nosso blog e ainda sem data de final fixa), é sempre princípio e orientação nossa, comunicar a outros membros e artistas individuais, todas as iniciativas em curso e cujo convite de participação nos seja também dirigido.
Todas as contribuições podem ser vistas e lidas aqui.
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quarta-feira, abril 04, 2007
Exposição de Rik Lina, em Amsterdam

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segunda-feira, abril 02, 2007
Memories are made of this - Merl (SLAG)
Desta vez recebemos a contribuição de Merl do Surrealist London Action Group para o nosso "jogo" de memórias de infância e juventude a que demos o título (aliás bem reconhecido certamente por muitos dos que nos lêem), de "As memórias são feitas disto".
Da cartinha de Merl:
Esta a fotografia de um objecto que conservo comigo desde a infância. Não se trata apenas de uma jóia de valor inimaginável e um legado de família cujo valor é incalculável; possui além disso muitas propriedades mágicas, incluindo a possibilidade de tele-transporte e de viagem no tempo.
Merl
ENGLISH VERSION:
Memories are made of this
A short letter from Merl (SLAG):
Here is a photograph of an object which has been in my possession since childhood. Not only is this the most valuable jewel imaginable and a priceless family heirloom, it also has many magical properties, including powers of time travel and teleportation.
Merl
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domingo, abril 01, 2007
Hoje no dia das mentiras

Termina a exposição "Um Postal para Mário Cesariny: Viagem a Arcturus", realizada em Estremoz, no respectivo Museu Municipal Prof. Joaquim Vermelho, sob direcção do Dr. Hugo Guerreiro.
Cesariny contudo continuará numa rota de "colisão" constante com os nossos sonhos e utopias, os nossos desejos e desagrados, o nosso desencanto de viver num país, numa sociedade de trapaça e lado a lado com um Estado que a todo o momento entra nas nossas casas como antes entrava a polícia e a propaganda do regime anterior. Não é necessário lembrar que o dia em que se mente "oficialmente" e sobretudo se mente manipulando o espírito, tornando escravos e alienados milhões de seres que, à partida, nasceram livres e com alguma inocência, é um dia como outro qualquer, um dia igual a todos os outros, numa sociedade em que uns mentem para dominar e outra quase metade mente para sobreviver. Os mais oprimidos mentem para enganar a má sorte e o destino que lhes "conferiram"; os mais afortunados, os mais fortes e cujo direito à liberdade é constitucionalmente aceite, os que exploram os mais fracos, bem ainda como os que a oportunidade saloia, muito mais que o engenho próprio, lhes proporcionou uma vida menos atribulada pelo infortúnio económico ou social, esses mentem para perpetuar o seu status e a ordem (re)estabelecida.
Cesariny continuará pois entre nós, mesmo que uma televisão qualquer nos venha testemunhar que o poeta cedeu a sua herança a uma instituição cuja história, o menos que se pode dizer, é que foi sempre feita de pesadelo. E nunca houve "meninos" inocentes. Quem lá esteve sabe do que fala.
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