O pensamento dominante continua a considerar o Surrealismo como um movimento estético, censurando a sua componente de intervenção em todos os planos da Vida e da Sociedade, numa perspectiva libertária e emancipadora. Por outro lado considera-se o Surrealismo como algo históricamente ultrapassado, como um "fóssil cultural" (como denunciou recentemente Guy Ducornet no seu livro "Os parasitas do Surrealismo"). E contudo, a intervenção surrealista nunca deixou de se bater contra os exploradores do Espírito e contra todos aqueles que económica ou socialmente exploram o Homem, impedindo-o de respirar LIVREMENTE!!!
O Cadáver Esquisito à mesa de dissecação

O Cadáver Esquisito à mesa de dissecação

Dádá e o Surrealismo de visita a Portugal com paragem na Universidade do Minho e S. Iria de Azóia. Uma maçada morrer de tuberculose e tão jovem.

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cadaveresquisito@alternativa2000.org

terça-feira, julho 24, 2007

Entrar Sair (poema de Allan Graubard et Jean-Jacques Jack Dauben
(tradução portuguesa)



ENTRAR SAIR



O Templo de Cesariny de Vasconcelos
terá esbofeteadores,
e será construído com copos de estanho
encontrados num bar antigo de alguma rua estreita
e tortuosa de Lisboa,
e quer seja colorido pelo derradeiro sonho de Viriato
ou pelo sangue de Sergius Galba,
a entrada para este local de encontro1 nunca nos livrará
do seu enrolar-desenrolar nos nossos olhos injectados de sangue,
sóis gémeos gravados na Adaga de Dezembro,
e à medida que passamos frente à sua pena,
aquela que ostenta a palavra
DESPREZO

tinta feita de absinto – colar druida de ouro2 – golpe de protesto



Ajeitamos as nossas gravatas antes de penetrar as imagens
“en tourbillion”,3
vemos um letreiro que diz Proibido Fumar4.
Contudo, das nossas mãos enluvadas o fumo se evola,
o fumo sai em grandes quantidades,
o fumo assume a forma de letras,
é então que vemos por entre o fumo
a cama do poeta flutuando
com as suas silhuetas quixotescas
em todas as praias que a ira espalhou
pelos nossos parques de competição para bebés,
os nossos alvos de relva cortada,
os nossos baudelerianos barcos sentimentais,
com as suas minúsculas árvores pessoanas5
e os olhos brilhantes como os de Vénus,
e os seus talabardões de mimosa enroscada, finos como papel,
e os seus graciosos panos de fundo de delicados delírios derviches.



A cama do poeta flutua
através de túneis íntimos de saliva e encapeladas colorações de ferrugem;
30.000 anos jovem amanhã, é amanhã que o Dodo
se ergue do colchão onde jazia extinto, mas é hoje
que o marinheiro-arlequim regressa
de viagens sem regresso;
a cama do poeta é uma locomotiva em chamas cercada pelos Celtas,
cercada pelos esbirros da Pide
por cravos e um corvo branco que pede mais,
por uma fadista6 cantando de olhos fechados, “As estrelas têm
uns burros pequenos tão lindos, por que é que não
nos trazem pistolas e cerveja irlandesa?”;
por agulhas sem linha e cinzas cheias de lágrimas,
por leite branco de uma “Vache”7 preta,
uma mistura volátil;
Nicolau Cansado8 está bêbado,
dorme para curar a bebedeira:
irá voltar?



Começamos a dormitar até que o som de uma Gaita Transmontana9
nos convida a passarmos agilmente para a sala ao lado,
onde nocturnos de Tânger
e um coro de rãs gigantes
douram as nossas pálpebras pesadas;
aqui a cortina abre-se para revelar globos de gordura escura
aglomerada em volta de ossos de Mamute
e as nossas gargalhadas misturam-se com o esmagar-se
de luas em quarto crescente
e de excêntricos brancos que ficam desnudados
como molhos de caudas verdes a ondear,
e cidadelas maduras e panteões sombrios
que Mário Cesariny de Vasconcelos esquadrinhou
para conseguir o seu beijo mais apetecido,
numa súbita chicotada osmótica de anos bissextos e de rosas;

meu pequeno diabólico plectro
minha auréola de lixo entrançado;

A cama do Poeta segue os nossos passos de uma sala para a outra:
é uma Caravela Portuguesa que flutua e vai aguilhoando
ao acaso,
passando por papéis Mouros amarelecidos e em tiras,
passando pelo abominável olho de vidro do veado de barro vidrado,
passando pela roupa do escritor10talhada na geada por almas penadas
passando pelo registo de prisões e pelos dados atirados;
continua e depois flutua por cima de nós,



e a seguir, aterra à nossa frente;
os ratos espalham-se como que saídos de debaixo de cobertores,
e ali ergue-se, como que iluminado por uma aura alpestre,
um magnífico e imponente lince
que diz a um de nós:
cabelo branco lebre preta11
cervo preto cpração branco12
noite branca cavaleiro negro; 13
sobre uma mão de pederneira vermelha, da cauda do
escorpião escorrerá o conto do leão, desta forma registando
na pedra a rota para as raízes das
especiarias interiores;
como navegador, imploro que toques
a rebate,
pois um cacique suarento,
na sua pomposa “dérive”14
tropeçou numa colmeia de eunucos
algemados,
e a vara de Artaud15 ornamentada de faíscas druidas
deve ser levantada.



Agora vai e não voltes mais,
deixarás este local deixando três palavras.



O lince falou assim aos outros:


Eu sou a macieira que se ergue da carnificina

Carnívoro plenipotenciário e detective bastardo

Excessivo nos seus brios, incumpridor das horas

Arauto de garças-reais dançando,
com recompensas de altos arrozais

Às vezes sem nome

Às vezes sem esperança

E todavia eu separo as vagas humanas
rebolando rodopiando centrípetas centrífugas

Meus olhos de Pirliteiro minha língua de Nepente16

EU SOU UM CAIR DA NOITE ESPECTRAL E INCOLOR DE MADRUGADAS E MADRIGAIS



O olho no coração que Mário Cesariny de Vasconcelos
segurava nas suas mãos
para ti e para ti e para ti,
meu delicioso vento iluminado por borboletas nocturnas!

Nemeton17
Shalako 18
Nunca

Máscara
Lábios
Cabelo




Jack Dauben
Allan Graubard
6-9 de Dezembro, 2006





Notas do Tradutor:
1.cat lodge, no original. Segundo Allan Graubard, tratar-se-á de local de encontro, uma casa cujo símbolo totémico é o gato, onde um grupo de pessoas se reúne para levar a cabo uma operação simbólica. 2. gold lunalae, no original. Segundo Jack Dauben, é um ornamento celta de ouro, da idade do bronze, em forma de crescente lunar. 3. “en tourbillion”, em Francês, no original = em turbilhão. 4. Em Português, no original. 5. Pessoa trees, no original. Referência a Fernando Pessoa. 6. Em Português, no original 7. No original, em Francês. 8. Heterónimo de Mário Cesariny. 9. Em Português, no original. 10. writing suit, no original. É uma referência imaginária às roupas que alguém vestirá quando está a escrever. (Allan Graubard). 11,12 e 13. no original, por esta ordem: “white hair black hare”, “black hart white heart”, “white night black knight”; trata-se de um jogo homofónico de palavras sem correspondência possível em Português. 14. “dérive”, em Francês no original = deriva. 15. Poeta e dramaturgo francês que Mário Cesariny muito admirava. 16. Nepenthe ou Nepenthes, no original – bebida mágica, remédio contra a tristeza de que Homero fala na Odisseia. 17. Nemeton é o nome dado ao bosque sagrado onde vivem os deuses celtas. 18. Shalako – É uma cerimónia dos índios Zuni que vivem no sudoeste norte-americano.

A Jack Dauben e a Allan Graubard agradeço os preciosos esclarecimentos, lançando luz sobre os passos mais obscuros ou ambíguos do seu poema.
Tradução de António Simões





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a chave e a fechadura inexistente, 2:28 p.m.

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