O Cadáver Esquisito à mesa de dissecação
Dádá e o Surrealismo de visita a Portugal com paragem na Universidade do Minho e S. Iria de Azóia.
Uma maçada morrer de tuberculose e tão jovem.
email:
cadaveresquisito@alternativa2000.org
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quinta-feira, junho 07, 2007
Os parasitas do Surrealismo

(La Mouche de la Merde, la SCATOPHAGA STERCORARIA)
Je me présente, je suis un insecte, un diptère plus précisément de la famille des Scatophagides, Scatophagidae pour les intimes. Je n'ose pas vous donner mon nom tellement j'ai honte ! Mais qui a osé me baptiser "mouche à merde" ? En fait, je suis attiré par les excréments frais et plantes différentes et ce serait plus respectable de me voir sous l'appellation de la SCATOPHAGE STERCORAIRE....Merci !
(Ver nota ao fundo)
A frente comum de estudiosos e analistas do Surrealismo aumenta à medida em que o "estudo" deste como movimento artístico, se vai tornando quase obrigatório nas escolas e liceus, nomeadamente nos laicos e republicanos. Cesariny já nos recordava "Burgueses somos nós todos ou ainda menos". E esta frase fez escola. As academias seguiram-no.
A historiografia do Surrealismo tornou-se assim um exercício regular para promoção de alguns "mestres" projectados para a notoriedade académica e universitária, por um passe hábil de mágica oportunista e redutora. Ora a teorização do Surrealismo deve ser feita pelos próprios, não por aqueles que em muitos casos se lhe opôem viscera e estruturalmente. Ernesto Sampaio, no caso português, foi um dos que melhor soube tratar o Surrealismo no plano teórico, sendo ele um notável poeta surrealista, o melhor talvez no campo da prosa surrealista. Nele o Surrealismo era visto por dentro, interiormente, sofrendo também ele os amargos da vida por esse facto (desaparecida a sua companheira de longuíssimos anos, a actriz Fernanda Alves, em breve também ele partia depois de nos deixar algumas páginas magnificas e ilustradoras do que é o verdadeiro amor louco, um amor que mata a razão e o cálculo e que não se deixa substituir por um amor de susbstituição, doméstico e domesticado). É que a mulher em Ernesto Sampaio era também ela a poesia em acção, a liberdade em voo picado sobre a alienação entre os tachos da casa e o funcionalato numa qualquer repartição ou escritório.
O que se pretende com a historiografia do Surrealismo (e em Portugal esta começou praticamente com Jorge de Sena que lhe chamou até "Sobre-Realismo"), é por um lado reduzi-lo a um movimento estético ("importante mas teve o seu tempo, não é verdade?") e por outro, reduzir a sua dimensão e influência a um conjunto de figuras tutelares (Cesariny, Cruzeiro Seixas, António Maria Lisboa, Mário Henrique Leiria), sendo assim fácil também etiquetá-lo como um pequeno grupo de jovens revolucionários influenciados pelos ventos de modernidade que sopravam de Paris.
Quase sempre recheada de enormes volumes, alguns deles profusamente ilustrados com as obras daqueles autores, não sobra contudo nem tempo nem página em branco para que sejam lembrados (e neste caso bem), outros intervenientes e continuadores (como Luiz Pacheco, Nicolau Saião, Lud, Almeida e Sousa, Granjeio Crespo e tantos outros), e mesmo nos casos em que o são, o que deles se fala é sempre no plano literário ou estético, quase nenhuma referência aos textos libertários, com carácter político e social, nem à sua actividade enquanto poetas e artistas libertários (par example, "A Múmia de Estaline vai aos Jogos Olímpicos" não é propriamente um texto que gere consensos na sociedade "pluri-partidária" em que hoje vivemos).
O Surrealismo que sempre soube fundir actuação escrita com actuação vivida, fica assim devidamente amputado por esses historiadores e analistas (Maria de Fátima Marinho, Perfecto Quadrado e outros). Nenhuma menção é feita sobre a intervenção surrealista de alguns autores, as perseguições a que foram sujeitos por esse facto, os suicídios por desespero, desencanto ou por uma revolta incontrolada, a prazis surrealista de alguns que fizeram da acção política e social uma componente fundamental da sua forma de intervir para mudar o mundo e a vida. As referências são quase sempre biblio ou íconográficas, cuja fonte são as obras pictóricas ou escritas dos referidos autores (quando não são simplesmente ignorados).
Em Portugal não surpreende pois que alguns autores se esforcem por aparecer na sua visibilidade literária ou estética, e muito menos na intervenção libertária que sempre os caractericou também, em muitos casos permitindo que o sistema se encarregue de os marcar para a posteridade, numa cumplicidade entre o poeta e o poder que seria de todo dispensável. Essa situação é constantemente justificada com o silêncio a que são remetidos pelo próprio sistema.
No caso português (ao contrário do que se passa em França, em Espanha, na República Checa e Eslocava, nos EUA, em Inglaterra, apenas para citar alguns exemplos), a separação entre actuação escrita e actuação no plano da vida e da sociedade, passou a ser sancionada pela maioria dos autores surrealistas que se remeteram eles próprios à condição de escribas, produzindo obras também elas "comestíveis" e aceites pelo stablishment vigente, ele próprio voraz no que respeita às obras da chamada modernidade. A literatura e a estética surrealistas aparecem assim associadas quase sempre a instituições políticas ou financeiras (bancos, órgãos de soberania, partidos, autarquias, etc.), as quais pagam aos artistas para que esqueçam os seus voos mais rebeldes, nomeadamente os da sua antiga capacidade de revolta. O nojo dos poetas transmuta-se em acomodação e conformismo, senilidade intelectual, recusa em recuperar os paraísos perdidos da sua infância e juventude.
(continua)
Nota: A foto foi extraída do web site aramel.free.fr e o comentário irónico é de Didier Chardin (extraído do blog Capteur Photos Insectes). Agradecemos aliás a Didier Chardin a possibilidade do recurso virtual a esta magnífica prosa poética acerca de um dos insectos mais indesejáveis. A tal ponto que se fizeram várias "descobertas" tecnológicas para o eliminar das cozinhas e das wc. Porém, tal como os exorcistas católicos não se libertam fácilmente das pragas de gafanhotos, ao fim de séculos continuamos com a mesma mosca, a rondar o bacón que estamos prestes a devorar ao pequeno almoço. Os que ainda podem. Em Darfur as varejeiras comem-se depois de se passearem pelo cocó dos da ONU que os visitam regularmente. Kofi Kofi oh Anan.
A mosca do Kafka era diferente, era uma questão de tempo e muito romanceada. Esta que espreita pelos olhos da criança africana e lhe entra depois pela boca como se entrasse num salão de putas, não é uma metamorfose, é um monstro.
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a chave e a fechadura inexistente, 1:22 p.m.


