O Cadáver Esquisito à mesa de dissecação
Dádá e o Surrealismo de visita a Portugal com paragem na Universidade do Minho e S. Iria de Azóia.
Uma maçada morrer de tuberculose e tão jovem.
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terça-feira, maio 08, 2007
O parque dos poetas mortos

O parque dos poetas mortos é nos Prazeres e por vezes num ou noutro lugar mais confortável. É lá que os poetas mortos se encontram verdadeiramente. Os outros parques para agradar aos próprios e aos moradores que têm as carteiras recheadas, não são verdadeiros parques de poetas mas manifestações de hipocrisia de uns (os poetas) e de outros (os poderes políticos locais e os moradores endinheirados).
Geralmente o processo faz-se como todos já sabem: ergue-se uma estátua, dá-se um nome de rua e depois chama-se àquele conglomerado de habitações sofisticadas (garagem privada, segurança, parque infantil fechado, etc), um parque de poetas.
O que pretendemos aqui referir é tão somente o seguinte: os poderes políticos locais não fazem isso porque gostem de poesia ou dos poetas assim "lembrados". Fazem-no porque querem atrelar a poesia, dar-lhe uma conotação de coisa recitada e escrita e não de algo que possa de alguma forma alterar a vida das pessoas ou contribuir para uma verdadeira transformação do mundo (e a transformação do mundo não é como todos também sabemos, passar a falar-se do Saramago ou do Cesariny em vez de se falar do Camões ou do Cesário Verde). O parque dos poetas é uma outra forma de fazer ou continuar a Europália ou a Expo 98: o importante, o substancial é pôr uma coleira à volta do pescoço dos poetas e torná-los dóceis, tipos que não levantam um dedo contra as instituições e os poderes instituídos, lembrando que estes são corruptos e autoritários, que continuam a perseguir os cidadãos, que continuam a pagar para que os cidadãos se espiem mutuamente (o actual PM e o das Finanças sabem como isso se faz). Foram à cartilha dos antigos informadores e estão a fazer pior. Como um vírus largado num estádio coberto, querem transformar todos os cidadãos portugueses em bufos ("olhe sr. guarda republicano, aquele senhor está ali a fumar"). Nem o Salazar se teria lembrado de tal coisa ele que também foi para lá para equilibrar as finanças do país.
Os poetas são pois pessoas responsáveis e respeitáveis (mesmo alguns que se reclamam do Surrealismo), e tal como os políticos, querem ser lembrados com honrarias, não querem ficar ocultos pois a ocultação pedida pelo próprio André Breton (e que não equavalia a deixar de pintar, escrever, etc.), é demasiado custosa em termos financeiros e pessoais - não dá para ter o nome assinalado pelos media, os jornais, as televisões, até os "magazines do coração".
E o que fazem os políticos para verem retribuídos os seus favores? Pedem o voto, a cara, a caneta e a paleta do artista: "vamos colocar no tempo de antena, o seu apelo ao voto no nosso partido, tome lá querido camarada o nome para uma urbanização e uma medalha de bons serviços, e quanto à exposição lá no palácio que agora pertence à República, pode contar com ela!").
Mas se o leitor andar com atenção pelo país, pelas cidades e vilas do nosso país, verificará o tipo de ruas que atribuem aos poetas mortos: há ruas cheias de cagalhões, outras cheias de carros velhos e abandonados, coisa poética obviamente.
Quando se olha para essas ruas tudo parece indicar que são ruas destinadas a "largar o calhau", é para ali que se dirigem numa espécie de procissão colectivista, todos os bêbados, vagabundos e outros populares a quem falta o regime sanitário básico. Dá sempre a sensação que é nelas que de repente dá a vontade de urinar e fazer cócó, nunca na rua de um comendador ou de um político famoso da primeira ou mesmo da segunda república. Quando se está aflito vai-se obrar lá para o pé da estátua do Sá Carneiro ou do Marquês de Pombal? Não. O que se faz é palmilhar ruas e ruas, algumas compridíssimas, para se chegar ao ponto do eterno retorno - uma rua com nome de poeta. E aí sim, sabe bem "largar o calhau", varrer tudo com chichi e depois limpar o cu aos arbustos que haja por lá. O serviço fica assim completo e é provável que quem passe pelo local se venha a lembrar do poeta homenageado, não propriamente pelo que escreveu ou pela forma como viveu, mas pelo cóco que lhe depositaram junto ao pé.
O regime socialista, republicano e laico é pois um dos principais inimigos da poesia viva, a Toda (aquela de que Herberto Helder nos fala), precisamente porque faz esvaziar aquilo que ela contém de subversivo, libertador e revolucionário, a capacidade de alterar rumos, vivências, lugares, a capacidade de transmutar. Premeia e consagra para arrumar o artista e o poeta na prateleira do Tempo, para que se diga dele no banquete das celebridades: "escrevia muito bem, eu gostava muito da sua poesia...e o soufflé caro senhor, quando nos traz o soufflé, a lagosta estava óptima...?".
Tal como no estalinismo, no fascismo vermelho, o regime socialista republicano e laico (dito social-democrata), também usa a emulação para premiar os mais devotados, os que de uma forma ou doutra (e douta, espertalhona pois), se esforçam para que o regime se aguente no poder ou volte a ele, se possível perpétuamente (como nalgumas autarquias locais).
Se o verdadeiro parque dos poetas mortos é nos Prazeres (estão lá reunidos alguns que nem sequer se davam pessoalmente, foram portanto forçados a conviver depois de mortos), deu-se aos poetas desaparecidos a possibilidade de estarem simultaneamente espalhados por algumas urbanizações de luxo e ao mesmo tempo disseminados por essas ruas que os portugueses escolhem preferencialmente para obrar e urinar.
Dá-se nome de rua no Parque dos Poetas em Oeiras, ao poeta António José Forte? ao Lud? Claro que não. Quando muito na terra que os viu (ou não viu) nascer, dá-se-lhes uma rua pequena que será inevitávelmente o cagatório para muitos dos moradores locais. E tudo porque não se obteve desses poetas, o nome no cartaz, o nome no panfleto eleitoral, o nome no discurso do político nacional ou local, o nome na lista dos apoiantes do partido.
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Etiquetas: a consagaçao dos poetas, a rua do cagalao, cemiterio dos prazeres, o parque dos poetas mortos
a chave e a fechadura inexistente, 1:54 p.m.


