O pensamento dominante continua a considerar o Surrealismo como um movimento estético, censurando a sua componente de intervenção em todos os planos da Vida e da Sociedade, numa perspectiva libertária e emancipadora. Por outro lado considera-se o Surrealismo como algo históricamente ultrapassado, como um "fóssil cultural" (como denunciou recentemente Guy Ducornet no seu livro "Os parasitas do Surrealismo"). E contudo, a intervenção surrealista nunca deixou de se bater contra os exploradores do Espírito e contra todos aqueles que económica ou socialmente exploram o Homem, impedindo-o de respirar LIVREMENTE!!!
O Cadáver Esquisito à mesa de dissecação

O Cadáver Esquisito à mesa de dissecação

Dádá e o Surrealismo de visita a Portugal com paragem na Universidade do Minho e S. Iria de Azóia. Uma maçada morrer de tuberculose e tão jovem.

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quarta-feira, novembro 29, 2006

O banquete dos cadáveres nas exéquias de Cesariny




O cadáver do próprio deu-lhes o flanco, abriu-lhes as expectativas, recebeu louvores e até uma grã-cruz qualquer dada pelo Chefe do Estado Português que foi lá a casa. Foi um dia triste esse, mas só para alguns de nós que desconfiávamos que estivesse vivo e recusasse. Nem os fascistas tinham chegado tão longe nessa coisa de ir consagrar um poeta a casa. Parecia tudo tão justo, um Presidente da República que vai ao domicílio. Ele que nunca apertou a mão da mãe, a António José Forte, a Pedro Oom ou mesmo a Herberto Helder.
Nos últimos anos o poeta abria já fileiras a um dos partidos do poder. E por isso estiveram lá todos, até um que nem sequer o conhecia mas sabia que o Estado o engrandecia por ser alta figura da cultura lusa. Cesariny guardava a sua revolta para o regime anterior e lembrava sempre que então era tratado por andar na "vagabundagem". Os cadáveres burgueses recompensaram-no por ter estado tão silenciado nas últimas décadas quanto ao que o regime actual fez e faz às pessoas livres - dá comendas a uns poucos, isto é, rouba aos mais desfavorecidos o pão da boca para dar aos sorteados.

O companheiro da revolta emaranhara-se entre exposições (sempre as mesmas e com os mesmos), e obras de outros que se ajoelhavam benemerentes por entre garfadas de lagosta recheada e passeios de "vagabundagem" a milhões de euros o metro quadrado de voo.

Nós que o conhecemos e sempre desafiámos para outros voos mais agitados, reconhecendo contudo que a idade de oiro já havia passado, temos alguma autoridade para o dizer pois nunca nos escolhemos para figurar nesse quadro de honrarias onde o Surrealismo chegava muitas vezes a ser tão académico quanto os academismos que antes denunciava. A última vez que o visitámos, pouco depois da historiográfica exposição dos mesmos e a que deram o título de "Exposição Surrealista ou Talvez Não", na Galeria de S. Mamede, em Lisboa (lá estavam o Raul Perez, o Cruzeiro, o Cesariny e todos os amigos da Intersindical Surrealista, mas não estavam o Nicolau Saião, o Lud ou o Matsinhe, só para citar alguns), disse-me com a já esperada franqueza "tens razão Carlos, mas foram eles (a S. Mamede) que fizeram a exposição, não fui eu que a organizei". Isto porque eu tinha deixado debaixo da dita galeria, um panfletozinho intitulado "Que um caralho vos foda a todos" para dizer precisamente o que digo atrás, que o Surrealismo Português também já estava a cheirar a mortos e fedia de tanto academismo.

O cadáver de Cesariny já circulava pelos corredores de alguns palacetes de pompa e circunstância, metido o surrealismo na gaveta de dois ou três amigos, quase todos bem enquistados no Poder. Não era o Cesariny da "Intervenção Surrealista" ou dos "Textos de Intervenção e Combate Surrealistas" ou mesmo o Cesariny do "Catálogo da Exposição Surrealismo e Pintura Fantástica" (feito em colaboração com o atrás citado N. Saião), que chegou a dar tentativa de inbterferência por parte do então Ministério da Cultura onde pontuavam o Calhau e aquela senhora que está agora no CCB.

Esse é o Cesariny que preferimos guardar na memória e sobretudo no coração, o Cesariny libertário e surrealista, mal dado com as cadeiras do poder e da consagração dos poetas. Não o defunto que o acompanhou nos últimos anos e que geralmente nos acompanha nesse período em que tanto os nossos olhos como o nosso espírito são atravessados por algo que nos turva e já não condiz com a nossa identidade.

Por isso não quisemos acompanhá-lo à sua última morada. Porque não acreditamos que essa seja a morada dos poetas (tal como dizia Dali "Os Poetas não deviam morrer!". É a morada dos que nos abrem a cova em cada dia da nossa fome e do nosso desencanto mas não a nossa. Não fomos lá nem nunca iremos. Sentir-nos-íamos também mal ao pé daquela gente que lá esteve, muitos deles certamente depois de terem dado ordem de bastonada contra alguma manifestação de protesto de cidadãos "mobilizados" ou de terem tirado ou diminuído as pensões a alguns lusitanos mais desgraçados. Lá estiveram certamente o João Soares amigo (dele, poeta) de longa data e que um dia mandou a polícia carregar sobre um grupo de cidadãos que protestava contra a mudança da Rodoviária para a estação da Carris no Arco do Cego, lá esteve Cavaco o da massificação do ensino que agora nem sequer lê o Cesário quanto mais o Cesariny.
A múmia não foi para a igreja mas foi para o das Galveias que é outra igreja mas vestida à civil, a igreja laica e republicana.

E agora o que vão fazer? Vão embalsamar o poeta? Vão dar o seu nome a uma rua cinzenta da Damaia? Vão dedicar-lhe um programinha na TV2?
E a propósito o que fazia Eduardo Prado Coelho na romaria? Seria para confirmar se o poeta estava mesmo morto? É que Eduardo Prado Coelho sempre foi e é um dos alvos privilegeados dos surrealistas! E contudo também foi ao banquete.

Acabado o repasto no Restaurante dos Prazeres, os cadáveres de S. Bento a Belém passando pela Academia das Artes e das Letras Lusas, vão à procura de outro e se não encontrarem mais nenhum (como a Morte na novelinha do Cabrera Infante), procurarão encontrar um ainda vivo.

O Mário Cesariny esse ouvir-me-á de Arturus e uma vez mais me dará razão e assinará por baixo.

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a chave e a fechadura inexistente, 12:48 p.m.

1 Comments:

MORREU CESARYNY:
Li aqui no maputo essa noticia que me custou acreditar.Mas para morrer basta estarmos vivos.
Cesariny foi meu grande amigo,conselheiro nas injusticas que sempre os donos do poder me fizeram.
Muitas vezes estive em casa dele grande amigo da irma que tambem ja morreu.
lembro-me na Brincadeira que me dizia:- se a minha mana fosse jovem:- tu eras o meu cunhado.- esta era a outra parte surreal do CESARINY.
Fui um dos Faltosos no BANQUETE DOS CADAVERES NAS EXEQUIAS DE CESARINY.
Tomei conhecimento do BANQUETE duas semanas depois,nao dava nem para ir apanhar os restos do cadaver no banquete.Enfim...A lei da natureza e esta nada mais temos a fazer.
Bom descanso meu amigo Cesariny que continues a encomodar outros cadaveres por ai. ate breve.
INACIO MATSINHE
MAPUTO/MOZAMBIQUE
Blogger ocajuvaidemota, at 14 de março de 2007 às 17:49:00 WET  

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